quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Tolerância Brasileira


Por Carlos Ramalhete

Para quem estuda filosofia, as visões de mundo dos povos são facilmente reconhecíveis como versões irrefletidas das escolas filosóficas importantes na história daquele povo.
No Brasil, a escola preponderante é a tomista, trazida pelos jesuítas. Por ela é de se esperar que pessoas boas façam coisas erradas às vezes. Deve-se combater e tolerar coisas erradas sem demonizar pessoas. Isso gerou uma cultura tolerante, ou seja, cada pessoa é percebida como tendo coisas boas e coisas más; nem anjo, nem demônio: um ser humano.
Nos EUA a base é kantiana, e para Kant, a lei moral é acessível à razão, portanto, existe uma lista infalível de regras morais. Isto significa que quem pensa ou age de modo diferente ou bem é incapaz de raciocinar, ou escolhe fazer o mal de forma intencional. Isso impossibilita o diálogo e a tolerância.
Podemos ver claramente a diferença cultural se comparamos duas pessoas de inegável talento, nascidas na mesma época e dedicadas à mesma profissão: Cauby Peixoto, no Brasil e Little Richard, nos EUA.
A inegável homossexualidade de Cauby sempre foi tolerada, uma questão de foro íntimo. Já Little Richard oscilou na sua carreira entre a afirmação brutal e a negação feroz de seus desejos; não lhe era possível, devido à cultura a que pertence, lidar com sua sexualidade de forma mais matizada.
A ação de grupos de pressão americanos no Brasil, infelizmente, está trazendo esta visão dualista para o discurso sociopolítico pátrio, negando a nossa tradicional tolerância e impedindo o diálogo e a coexistência que sempre marcaram nosso país.
Armas, religião, sexo... Não vale a pena lidar com estes temas de forma dualista, quando se tem uma cultura tão mais rica em que se apoiar.

Texto de Carlos Ramalhete (adaptado) publicado na p.10, Vida e Cidadania, da Gazeta do Povo, no dia 10 de Janeiro de 2013.



Nenhum comentário:

Postar um comentário